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Entrevista a Rui Rocha - Dir. Comercial e de Marketing da Moçambique Editora





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Para Moçambique Editora, o mais importante de tudo é que os seus livros estejam em todo o país e Rui Rocha, Director de Marketing da empresa, visivelmente satisfeito, disse: "Neste momento, há uma certeza que nós temos: que os nossos livros estão em todo o país. Já oferecemos mais de 50 mil livros, o que deve totalizar cerca de 2.5 biliões de meticais". E a satisfação torna-se ainda maior quando se sabe que os livros são de autores moçambicanos e feitos quase na totalidade por moçambicanos, já que do efectivo dos trabalhadores apenas um é que é estrangeiro. "A empresa está a desenvolver-se", conclui com orgulho e convicção o nosso entrevistado.

Moçambique Editora
Livros em todo o país

Quando se fundou a Moçambique Editora, em 1996, duas das necessidades que os gestores sentiram foram: em primeiro, editar livros para o ensino moçambicano, livros obrigatórios, ou seja, livros de exercícios para as várias disciplinas, tendo surgido daí a colecção "Exames Sem Medo", a colecção "Pela Prática", a colecção "À Procura de Saber" e dicionários, entre outras obras, uma segunda necessidade foi a de explorar o trabalho que se desenvolvia nas províncias a nível da Educação e da Cultura.

Foram feitos vários contactos com o Ministério da Cultura e as respectivas direcções provinciais, mas digamos que o grande esforço que se fez foi com sector da Educação, o que levou a Moçambique Editora a programar viagens por Moçambique, de quatro em quatro meses. As primeiras viagens só foram feitas a partir de 1999/2000.

"Fizemos a primeira viagem de carro. Foi uma experiência nova", disse Rui Rocha, acrescentando que a mesma durou cerca de 22 dias. "Fomos a todas as capitais provinciais, o que possibilitou que se conhecessem também algumas direcções distritais, bem como escolas existentes em vários distritos de cada província".

"Qual foi o sentimento?", inquirimos, ao que o Rui Rocha respondeu: "O que sentimos foi que as escolas, as bibliotecas, as associações dos amigos da leitura, da cultura e das artes, enfim, as pessoas, tinham uma grande vontade de ter livros".

Como toda a gente sabe, o negócio da Moçambique Editora é o livro escolar, mas o negócio não é só a comercialização. A empresa sabe que para essa comercialização se efectivar, primeiro é preciso fazer a divulgação dos livros. Foi essa a política que a empresa usou a nível de todo o país, porque, como fez questão de sublinhar o Rui Rocha, "para podermos vender, precisamos primeiro divulgar o livro".

"Na primeira viagem às províncias levámos connosco cerca de mil títulos. Não sei precisar ao todo quantos exemplares de cada título mas julgamos que levámos cerca de mil e quinhentos livros dos vários títulos que nós já tínhamos editado. Em cada província, fizemos, na primeira viagem, uma distribuição a nível de Direcção Provincial de Educação, ou seja, as escolas públicas só têm acesso ao livro através da Direcção Provincial", disse-nos o Director Comercial e de Marketing da Moçambique Editora.
Durante a conversa com a nossa reportagem, Rui Rocha lembrou-se que, na altura, a capital provincial do Niassa-Lichinga e a cidade de Quelimane na Zambézia não tinham livrarias. Aliás, até hoje, Lichinga não tem livraria.

Para a Moçambique Editora, a primeira experiência foi bastante positiva porque houve uma grande aceitação por parte das direcções provinciais de Educação, que eram o principal objectivo da primeira viagem.


O Apoio das ONG`s

Dentro das direcções provinciais trabalham as delegações das organizações não-governamentais (ONG`s), que dão apoio financeiro e logístico, obviamente através do Ministério da Educação, e nas viagens que Rocha tem feito às províncias vai conhecendo essas pessoas e criando laços de união, de maneira a que os livros da Moçambique Editora cheguem às províncias.

Foi na sequência desses contactos que, em 2001, a Agência Dinamarquesa para o Desenvolvimento Internacional (DANIDA) comprou 70 mil dicionários, que foram distribuídos por igual número de professores inscritos nesse ano, através do Ministério da Educação. Juntamente com os dicionários, foram distribuídas agendas do professor-2002.

O gesto dinamarquês foi um grande incentivo para o desenvolvimento deste projecto. Foi feita a segunda viagem que serviu para a divulgação dos livros que ainda não tinham sido apresentados e todos os outros que iam sendo editados. Esta viagem foi essencialmente destinada às bibliotecas. Na terceira viagem visitámos as direcções provinciais de Cultura, enquanto que a quarta foi destinada a diversas escolas espalhadas pelo país. Refira-se que, nesta viagem, foram feitas ofertas de livros directamente às escolas.

"A Moçambique Editora começou a aparecer e o nível de produção do livro começou a aumentar. Fazíamos três a cinco títulos por ano e agora estamos a fazer cerca de treze. Portanto, o desenvolvimento é muito maior, a capacidade é muito maior e, em cada viagem que nós íamos fazendo, começámos a ter objectivos delineados", explicou o Rui Rocha.
A quinta e sexta viagens foram para dar a conhecer os livros para a primeira, terceira e sexta classes (do novo currículo) que entraram em vigor, no Ministério da Educação. A sétima, que acaba de se realizar, serviu para a distribuição de livros, porque, para a Moçambique Editora, o mais importante é que "o livro chegue a todo o país".

E esse objectivo está sendo atingido. Presentemente, estima-se em mais de 50 mil a quantidade de livros já oferecidos em todo o país, o que deve totalizar cerca de 2.5 biliões de meticais.
Mas o que agrada ainda mais aos gestores da Moçambique Editora é o facto dos próprios directores provinciais terem interesse nos livros da empresa, estão contentes e querem continuar a trabalhar com a editora, sendo esta a grande constatação da sétima viagem. No entender do nosso entrevistado, o interesse manifestado por esses directores mostra a grande força que a Moçambique Editora tem conseguido ganhar nos últimos anos.

E há outros motivos de satisfação. É que ao fim da sétima viagem as relações estabelecidas já são relações de amizade, "porque há muito tempo que nós vamos passando nas direcções provinciais são pessoas que vamos conhecendo e são experiências que vamos trocando. Por exemplo, nós temos uma grande vontade agora, porque estamos a ver que não é só o livro escolar que interessa a Moçambique, é toda a literatura moçambicana".


O acordo com a UEM

Entretanto, a empresa tem neste momento um acordo com a Imprensa Universitária sobre a distribuição de livros. Ao abrigo desse acordo, a Moçambique Editora fica com a distribuição dos livros da Imprensa Universitária, que praticamente são todos de autores moçambicanos. É um acordo que vai possibilitar que chegue às províncias um maior leque de livros.

No seio dos trabalhadores da empresa há sentimentos de cada vez mais as publicações da Moçambique Editora vão crescendo, os preços de venda ao público vão baixando e vai-se conseguindo criar uma relação mais estável entre o cliente e a empresa. Diz a Moçambique Editora que o preço do livro é mais acessível e isso faz com que a pessoa se motive mais a ter esse livro. Obviamente que o mercado de venda e leitura do livro é ainda muito pequeno, ou seja, o hábito da leitura, como se diz, ainda é fraco, e daí que a forma da empresa achou de cativar através destas ofertas a várias instituições. É, em parte, graças a essas ofertas que muitas bibliotecas estão a ser reabilitadas. A biblioteca do Chimoio, na capital provincial de Manica, é apenas um exemplo. Tinha poucos livros. Foi totalmente reabilitada e já tem livros, cerca de 2000, muitos deles oferta da Moçambique Editora. Incluem-se aqui dicionários, gramáticas, livros de histórias, "Exames Sem Medo", entre outros.

A biblioteca municipal de Quelimane tem uma grande necessidade de dicionários e a Moçambique Editora lamenta que até hoje ainda não tenha conseguido oferecer todos os dicionários que quer oferecer, mas é sua intenção fazê-lo na próxima viagem, em finais de Agosto corrente.

Aos poucos vamos apetrechando as bibliotecas e as escolas com os nossos livros", sublinhou o nosso entrevistado, que contou um episódio engraçado que se passou no Chimoio, no ano passado. Ele ia passando a frente da Escola Primária Amílcar Cabral, a caminho da Direcção Provincial de Educação, e estavam umas meninas, de sete anos de idade por aí, a brincar fora da escola. Rocha levava uns livros azuis da colecção Júnior um dicionário e uma gramática. As meninas reconheceram que eram da Moçambique Editora. "Isto dá-nos vontade para continuar a trabalhar porque é nestas pequenas coisas que o nosso trabalho é reconhecido", disse.


A rentabilização do negócio

A uma pergunta sobre como é que se pode rentabilizar esta actividade, uma vez que os livros não são vendidos, o nosso entrevistado respondeu: "O nosso negócio só é rentável caso exista uma divulgação do livro, se eu não mostrar o livro a uma direcção provincial ou a uma organização não-governamental, que trabalhe nessa direcção provincial, a margem que eu tenho de poder vender o livro é muito pequena e centra-se num mercado de seis a sete por cento em Maputo, o que não é nada. Então, o poder económico para a compra do livro vem dessas direcções provinciais, que contam com o apoio de ONG`s como a DANIDA, a Save The Children, Concern, Unicef. Mas para elas poderem vir a comprar têm que ter alguns livros de oferta. Aliás, com os jornais acontece o mesmo, porque há sempre um número de jornais que se tira a mais para ofertas..., e com os livros funciona-se também dessa forma: há sempre um número x de livros que saem a mais para nós podermos fazer essa divulgação. É nessa base que trabalhamos, porque só assim é que conseguimos ter alguma rentabilidade".

Na sétima viagem às províncias, Rui Rocha apresentou também às direcções provinciais os livros da Imprensa Universitária. "Os pedidos já começaram a chegar, ou seja, foi preciso primeiro oferecer para depois ter algo em troca. Eu acho que é assim que tudo funciona e para nós isto não é um custo acrescido, não é por aí que está a nossa rentabilidade e o nosso negócio. Estar a oferecer 10 ou 11 livros ou um por cada direcção provincial é uma coisa diminuta para aquilo que nós depois poderemos vender, e é nesta base que nós tentamos desenvolver todo o nosso trabalho".

Cortar relações com o MINED?
"Isso não nos passa pela cabeça" - diz Rui Rocha
A Moçambique Editora abriu um processo o Ministério da Educação, por se sentir injustiçada num concurso para a produção de livros escolares. Neste momento, as coisas ainda estão paradas não se sabendo muito bem qual é o desenvolvimento que estão a ter, tanto mais que o processo foi entregue aos advogados da empresa.

Para o Director Comercial e de Marketing da empresa, contraa abertura do processo contra uma instituição do Estado "é naturalíssima, estamos num Estado de direito e as coisas funcionam numa base de legalidade. A Moçambique Editora achava que o concurso do Ministério da Educação deveria ter sido de uma forma e o Ministério achava doutra forma e a única maneira de se resolver isso num Estado democrático é através dos tribunais".

Rui Rocha entende que se criou um alvoroço muito grande por uma coisa que é pequena. Obviamente que se está a falar de algum dinheiro, que na opinião da Moçambique Editora lhes foi retirado. Foram livros, principalmente de autores moçambicanos, que foram retirados.

"É tão simples quanto isto criar autores moçambicanos, formar e trabalhar com eles. Foram cerca de dois anos a trabalhar para os livros de 1.ª, 3.ª e 6.ª Classes e sair um resultado do Ministério da Educação em que Moçambique Editora ganhava nove lotes (lote é o livro do aluno e o livro do professor) dos 20 que estavam a concurso, mostramos aos autores que eles tinham sido aprovados e adjudicados, para depois, de um momento para o outro, isto deixar de acontecer... Como é que esses autores se sentiram? Foi muito difícil pô-los a trabalhar", lamentou.

Rocha diz que isto é algo que lhes custa, porque não só os autores, a Moçambique Editora toda ela, praticamente é constituída por trabalhadores moçambicanos, os quadros, os paginadores, os vendedores são todos moçambicanos, só temos um estrangeiro. "Portanto, isto é algo que o Ministério não quis aproveitar, o que é mau, porque só perdeu com isso", disse o Director Comercial e de Marketing daquela empresa de capitais moçambicanos e portugueses.

Contudo, a empresa não cortou relações com o Ministério da Educação, uma vez que este trabalha com livros da Moçambique Editora e "não é por haver uma decisão contra aquilo que nós pensamos que vamos cortar as nossas relações com o Ministério da Educação. É óbvio que há pessoas que podem ter ficado aborrecidas e achar que trabalhar com a Moçambique Editora já não seria bom. Não ponho isso em causa porque é uma coisa natural, mas do que eu tenho visto - e eu tenho estado quase todos os dias no Ministério da Educação - não há nenhuma reacção negativa, isto porque os nossos livros estão em todo o lado e todas as pessoas dentro do Ministério sabem qual é o esforço que nós fazemos e sabem que, ao fim e ao cabo, o que nós fazemos é bom para Moçambique, pelo que não é nossa intenção deixarmos de o fazer, nem nunca isso passou pela nossa cabeça. Mas o ponto mau nisso e o que eu continuo a achar que não foi bem analizado é o processo dos autores, que no fundo foram os mais prejudicados. São autores com qualidade comprovada e são moçambicanos".


Jornal "O País", de 7 de Agosto de 2004.


 

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